APHRODISIAKOS - E-BOOK POESIAS ERÓTICAS

Posfácio de e com narração da poetisa Magmah.

 

AO SONETO

E, como singular polichinelo,
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O soneto, nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E, na mais rara procissão augusta,
Surge o sonho das almas dolorosas...
Cruz e Sousa

Componho meu soneto em terna lira,
Tecendo seus encantos pra você.
Quatorze versos, leve casimira
Escritos em moldura de buquê.

Amor é o substrato que me inspira
Estrofes como tramas de crochê
Talhadas sob o sulco da safira,
Buscando a perfeição que não se crê.

As rimas arranjadas pelas linhas,
Sonoro jogo em notas musicais,
Estâncias cultivadas nas tardinhas,

Ouvindo o louco canto dos pardais
Bem quando na janela tão sozinha
Meu peito vou cosendo em tantos ais!



AKHILLEUS ACALENTADO

Era de noite – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
[...]
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Álvares de Azevedo

O véu da noite negro e vaporoso
D’ estrelas encobria meu Amado,
Que tão cansado, ébrio e majestoso
Em sono poetava apaixonado.

Do peito, o verso terno, langoroso
Na aurora suspirava derramado
Num canto forte, denso e tão formoso
Aos Céus subia em transe acalentado.

Um sonho, doces olhos fulgurava,
Os lábios tão vermelhos qual narciso,
As formas em seu leito repousava,

Adão sonhando em pleno paraíso.
O meu Amado lindo transbordava
Poesia em todo o seu sorriso.

CASUAL

AKHILLEUS


E desde então sou porque tu és,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
Pablo Neruda

Amar-te docemente e com ternura,
Amado do mais lindo sonho meu,
Pra ti ser o placebo, tua cura,
O sol se derramando no teu breu.

Livrar-te da tristeza e da agrura,
De cada farpa que tua alma absorveu.
Amor, te dar a paz e a quentura
Do níveo seio cônscio em apogeu.

Estar contigo, ser a residência,
Morada do desejo vasto teu.
A tua calma dentro da urgência,

O credo firme, forte de um ateu.
Colher em ti a cor da existência,
Nos teus acordes líricos, ó Orfeu!


POR QUE O AMOR NÃO PODE SER TÃO LEVE...

Amor devia ser a brisa leve,
Soprando no stress do dia a dia,
A mão que por si escreve
A mais linda poesia.
Alessa B.

Por que o amor não pode ser tão leve,
O meigo voo do mais lindo beija-flor,
Criança enlevada vendo a neve,
Pipoca doce em todo o seu sabor?

Por que o amor não pode ser tão leve,
Cabelo solto em vento multicor,
A rosa perfumada que descreve
A vida latejante em seu frescor?

Por que o amor não pode ser tão leve,
Estrelas no cismar dum sonhador,
O bálsamo febril que se prescreve,

Na música sublime dum cantor?
Por que o amor não pode ser tão leve,
Poesia no cantar do seu autor?

VERSOS ESCARLATES

E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
Florbela Espanca

Tu és o meu desejo em tons vermelhos,
Os versos escarlates que eu componho,
Imagem vaporosa, o meu espelho,
O rubro nas paredes do meu sonho.

Polidos neste peito em que te sinto,
Tingindo meu amor em cada linha,
Borrando-o vou no velho vinho tinto,
Teu rosto que do sonho se avizinha.

E vindo já da lavra de uma lima
O brilho denso, flébil, aspirado,
Pairando belo, solto, bem acima

O verso teu vem pleno tão rimado.
E não há nada mais que me aproxima
Do teu calor em sonho sublimado...

CASTANHOS

E é-me tão nítido esse tempo lindo...
Luas... auroras... Posso até retê-las
Nas mãos, o seu tamanho comprimindo!
[...]
E em teus cabelos debulhando estrelas!
Humberto Rodrigues Neto

Os teus cabelos fartos tão castanhos,
Deitados na penumbra dos meus dedos,
Naquelas belas horas, doce antanho,
Em que tudo, Amor eram folguedos.

Oh! Um amor tão vasto, tão tamanho,
Que a ti, eu dediquei como o meu credo,
Agora com saudades eu me apanho,
Queimando no infortúnio d’um degredo!

Em sonhos ainda toco teus cabelos
Num gesto de ternura tão aflito,
Buscando-te voraz, em atropelos,

Em transe sigo louca no meu grito.
Movendo mundos, corto mil apelos,
Nas sendas trepidantes do infinito.

SPECULUM

E esse amor tende a recompor
a antiga natureza, procurando
de dois fazer um só, e assim,
restaurar a antiga perfeição.
Platão

Eu quero amar-te suave, de mansinho,
Senhor dos meus anseios, minh’alma.
A ti oferecer o mundo, meu carinho,
Doce amparo, abraço, tua calma.

Eu quero ser refúgio, o teu ninho,
Proteção que te conforta e te acalma.
Ser pra ti a direção, um caminho,
Espelho teu d’água, a tua alma.

No céu ser o teu astro mais bonito,
Estrela azul que te eleva, te espalma...
Amor, contigo absorver o infinito,

Em êxtase enlaçá-lo, nossas palmas.
No Tempo nosso afeto sendo escrito,
Amor maior, dois seres, um’alma.

NOSTALGIA

Oh, que muitas quimeras jovem beijei
Nos lábios vaporosos da ilusão!
E tantos beijos que nessa boca deixei,
Que não sei mais onde perdi a razão!

BEBERAGEM

Hoje o espaço é de luzes cheio!
Sem esporas, rédeas e freio,
Vamos a cavalo a um destino
Que o vinho torna o céu divino!
Charles Baudelaire

Te sorvo na volúpia deste vinho,
Que desce a garganta e feito fel,
Azeda nas artérias, faz ninho,
Deitando mil memórias a granel.

Em todas elas sempre adivinho
Teu rosto destilado sobre um véu,
De cada uma tiro seu espinho
E cravo nas entranhas de um papel.

A taça permanece tão vermelha,
É sangria desatada no meu leito,
Voragem palpitante desparelha,

É chama presa, fogo liquefeito.
E flamba no ardor duma centelha
E queima na vertigem do meu peito.

SONATA

Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Pablo Neruda

Astuto sempre chega de mansinho,
Quieto, sorrateiro e com vagar,
Seduz-me lentamente, com carinho,
No colo põe, subjuga e faz sonhar.

Me joga docemente no teu ninho,
E logo no teu peito vou a voejar,
Vagando em mil espaços, mil caminhos,
Contigo sigo ébria em céu e mar.

Em transe junto a ti, eu me reviro,
Me entrego sem pudor em abandono,
Suspensa na vazão deste retiro,

Qual folha na paisagem de outono,
Deixando em pleno voo um meu suspiro,
Em teus braços me encanto, débil Sono!

MENSTRUAL

Leitor, se me perguntares ´
Donde me saem tantos versos,
Eu te respondo:

Não construo versos, eu os menstruo,
menstruo-os como o sangue da Virgem,
vertido no coágulo duma ferida perene
que me consome a Alma,

Casulo de seda onde rebentam
Meus Eus,

Esta Borboleta que voa e revoa
Continuamente dentro de mim.

E assim eu menstruo versos,
Que me circulam nas trompas,
Versos que vão e que vem
Que vem e que vão...

E nesse ciclo menstrual de versos
Hei de sangrar poesia até a última gota,
Até o derradeiro ruflar de asas.

MENINO DE ASAS

L'Amour est un oiseau rebelle,
Que nul ne peut apprivoiser.
Et c'est bien en vain qu'on l'appelle
C'est lui qu'on vient de nous refuser…
(O amor é um pássaro rebelde – Maria Callas)

Deixai aberta as folhas do destino,
Ó, mortais, que ele vem sem ser chamado,
Soprando os mais bonitos, doces hinos,
Em voo, cego, lento e descuidado.

Amor é como chamo esse menino,
Que com seu arco e setas, bem trajado,
Na sanha de inocentes desatinos,
Os vossos peitos sangra, o abusado!

E tendo a chaga presa em vosso ente,
Queima-vos o ébrio seio noite afora,
E nessa febre louca e insistente,

Mil sonhos e desejos a alma doura.
Criança fútil, tola e inconsequente,
Que as vossas ilusões sustém, devora.

AQUELES OLHOS

Mas ai que mil estrelas pingam em meus olhos,
Molhando todos os meus sonhos infaustos e inglórios!

Onde estão aqueles olhos,
Doces olhos d’outrora,
Olhos esgazeados de encanto
Que expressavam tanto afeto?
Terá ele ido embora?
Terão eles se perdido n’outro canto?
Oh, e eu que os desejo tanto, tanto!...

INQUIETUDE

Por que é que no silêncio da noite nos assusta falar em voz alta?
(Vergílio Ferreira, Aparição).

Escuta o gemido pela Terra,
São vozes abafadas nos cansaços,
As ondas refluindo nas esferas,
Suspensas na penumbra dos espaços.

A vida-solidão que nos espera
Vertida nos espasmos mais escassos...
Que cada ser humano reverbera,
Pisando na voragem dos seus passos.

Escuta estes ecos trespassando,
Cantigas nas cavernas, entredentes.
São gritos de angústia tremulando,

Memórias recolhidas num ausente.
Na célula pendendo e latejando
A dor oculta que tod’alma sente.

VERSOS PERTURBADOS

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
(Florbela Espanca)

Qual vela acesa num altar sagrado
Ardo na penumbra oca do teu sonho,
Sou o teu desejo casto e malogrado,
Teu medo taciturno e mais medonho.

Comigo teu eu demente e perturbado,
Perpassa cada verso que componho…
Sou teu chamado quente e desastrado,
Na esfera do teu sono mais bisonho!

És o meu canto louco em pensamento,
O soluço delirante em meu ouvido,
Um mosaico agastado e marulhento,

Vagando no limite dos sentidos.
Sou das ânsias tuas o sacramento,
És da doce angústia minha o aldeído.

PÉTALAS SECAS

À Cora Coralina

Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas.
(Cora Coralina)

Mil rosas deixo no caminho, Cora,
Viço e frescor da antiga mocidade.
Os rastros da menina que vai embora,
Nas faces cansadas da velha idade.

De tristeza minha alma s’encolhe, chora,
As lágrimas morosas da saudade.
São os anos moços e belos d’outrora,
Jogados nos ocos vãos da frialdade!

Levadas pelo tempo vão secando,
Frouxas pétalas dissolvidas ao vento.
Que à eternidade vão voltando,

Voando pelo crepúsculo cinzento.
Dispersos fragmentos ao léu rimando...
O verso último do último lamento.

WINE

"Se Deus tivesse proibido o vinho, por que o teria feito tão gostoso?"
(Richelieu)

Da púrpura uva nasce tinto vinho,
No sangue mesclado, um devaneio.
Em êxtase sorvo lenta, com carinho,
Volúpia eclodindo no meu seio.

Sem pés a passos largos, sem caminho,
Andando vou em transe, sem esteio.
Tragada à frente sou por mil moinhos,
Etéreo carrossel dos meus anseios!

No abstrato cava e faz gostoso ninho,
Tropel fugaz em que me lanço, m’enleio...

Deixando tortos rastros, desalinho...
Em trôpegos sentidos, eu falseio,

Em círculos rodando, torvelinho...
Senhora d’meus abismos, me alteio...

FEITICEIRO

Macabras noites de infausto outubro,
Medo e horror habitam em cada canto,
Pasma, teu afeto nas trevas descubro
E pálida e assombrada, eu me espanto!

Coração imerso, mar de sangue rubro,
Vai às profundezas furtas do encanto.
Nas vagas revolvidas me perturbo,
Mas me banho em enlevo, entretanto...

Curvada à luz de Febe te saúdo,
Tu, Bruxo que surges d’algum recanto,
Mistérios meus em sonhos, conteúdo...

Vens e me despes desse negro manto.
Na bruma o som dum grito agudo,
Harmônico feitiço em contracanto...

OFERENDA

Meu amor para sempre viverá, fresco e jovem em versos meus. (Shakespeare)

Ah! Não cures a chaga que me inflama,
Queimando o níveo peito com prazer,
Somente que mais viva arda essa chama,
Pulsando mil espasmos no meu ser.

Não me amanses em meu brutal querer,
Amor que subsisti além de mim,
Entenderás, Amado, que ao morrer,
Há coisas de que não se veem o fim.

Aceita apenas o afeto que ofereço,
Em teu seio guardando-o junto a ti.
E se dele perder tal endereço,

Pesquisa em teus olhos, meu guri!
Se por ti em versos tantos me endoudeço,
É pois que amei-te desde que eu te vi...

EXISTENCIAL

A existência precede e governa a essência.
(Jean-Paul Sartre)

Se num sopro de pó surjo no mundo,
Folha virgem expelida na estrada,
Que eu redija em mim um ente fecundo
Tracejando meu destino entre o Nada.

Que ao existir eu confira meu valor
E neste plano erga minha essência.
Se não vim do ventre dum Criador,
Que em Terra abrace eu a transcendência!

E se ao morrer, findar em cois’alguma,
Poeira consumida... caos do Universo,
Orvalho amanhecido em fria escuma,

Desfeito nos vãos do tempo perverso,
De todas as coisas, quero só uma:
Que eu dilua... mas que fique meu verso.

OUTONO N'ALMA

Se tu viesses [...]
A essa hora dos mágicos cansaços
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
(Florbela Espanca)

Se tu viesses amar-me agora à noitinha,
À hora em que Vênus no céu resplandece,
Quando a monotonia do outono adivinha,
Este silêncio imemorial que o peito aborrece.

Oh, que tamanha felicidade esta minha!
A esperar-te num leito d’estrelas celestes,
Abraçar em ti o universo em água marinha,
Desnudando mistérios e prazeres terrestres!

Se viesses amar-me, meu bem, à hora vadia,
Quando no peito esta dor mais s’enterra,
Revestida em nuances e tons de nostalgia

Como as sombras que caem sobre a Terra...
A hora em que a noite voraz abraça o dia
E uma lágrima de saudade o olhar dilacera...

Ah, se viesses, meu bem...